segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

OLHANDO ABACATES





À noite,
lembram as cabeças dos alcatrazes,
mas, num átimo,
à guisa dos fantasmas,
configuram-se em seios de
canibais.
Abrindo-os, estão lodosos,
Vedoengos e nauseabundos.
Lá, no núcleo selvagem,
quase sempre,
um homem nu,
semi-morto,
um corpo penoso,
ancestral

PRISIONEIRO





Minha mãe é uma mulher de fé.
Acho interessante a forma
como minha mãe fala

com Deus.
Um dia, contou-me ela,

segurou-O
em pleno banheiro e
Obrigou-Lhe a dar-me a cura.
Imagino, então a zorra no Céu:
o boato de que Deus é prisioneiro na terra
pela fé de uma mulher.

PAVOR TEOLÓGICO





Tenho medo de não
resistir a presença de
Deus em minha vida.
Tenho medo de
que Ele
me abrace e
me beije e
me homossexualize
.

AUSÊNCIA






A tua ausência
Não é apenas o teu corpo ausente
É minha alma sem mim;
Nada fazendo significado,
Navio perdido a bravo mar,
Sensação de tempestade,
Terremoto,
Fim de vida, enfim,
Se não encontro tua vida
Dentro de mim.

ANTES DO CREPÚSCULO






A solidão divide as nuvens;
Entre os edifícios o meu peito arde,
mas os olhos viajam...
Ainda assim, tenho medo de subir
as montanhas e não alcançar as nuvens
ou, como pássaro, me renda
no labirinto...

DIVIDIR O PÃO





Minha mulher me acha um pão
Claro, isso é a mais pobre metáfora.
Massa fina, massa grossa,
Às vezes, sou joio; outras, sou trigo.
Seja como for,
tenho uma visão cristã de ser pão:
O pão deve ser repartido
.

RENDIÇÃO




Percorro o mundo
mas volto a ti
porque é no teu seio
que está meu refúgio.
Contemplo flores
mas é no teu colo
que encontro o mais belo
jardim da vida.
Tudo que escrevo,
tudo que falo,
tudo subjaz ao que faço
mas o que sou é
essencialmente construído por ti.
Eis-me aos teus pés, senhora.
Tua vida me faz homem
mas é o teu amor que me
transforma poeta.